Calçada espremida entre a saída do metrô e um corredor de ônibus. Avalanches de passageiros engolem o cimento da cidade, disputamos o espaço como formigas, obrigados a parar, esperar, mudar de caminho, esbarrando nos outros. O dia começa mal. De repente, ela desce do ônibus bem na minha frente: uma beldade. A pele morena lisinha, sem defeitos, a cintura fina, os longos cabelos ondulados esvoaçantes, dissolvendo delicadamente todos os pensamentos idiotas que até então eu trazia comigo.
E aí ela faz, graciosamente, o gesto improvável e raro. Uma caprichada cusparada no chão. Eu acreditava que o escarro era algo nojento, até aquele momento. Queria a saliva daquela boca, morder aqueles lábios grossos e macios. Eis que um oásis daquele precioso líquido se abria no deserto de meu cotidiano estagnado. Tenho sede. Sinto-me tentado a me agachar ali mesmo para lamber do chão esse elixir da minha musa anônima. Mas fico com vergonha, assim como fico com medo de abordar aquela desconhecida no nervoso fluxo de gente que vem na direção contrária. Vai que me enquadram no novíssimo crime de "importunação sexual". Em um instante ela se foi, o sol bate seco em meu rosto, as obrigações me esperam poucos metros adiante.
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