Mas se a palavra bosta é usada levianamente, não se pode dizer o mesmo da pastosa matéria que empresta seu nome a uma expressão tão utilizado todos os dias. Às vezes mais cremosa, outras vezes mais firme, a bosta em geral é rejeitada. Pouca gente está disposta a nadar em um rio de bosta, apesar de muita gente morar em São Paulo. Pouca gente mergulharia em um tanque cheio de merda. Principalmente, pouca gente comeria merda de bom grado.
Falam "merda" a todo o tempo, mas não encaram a merda com a mesma galhardia se ela aparecer de surpresa. Ficam logo com nojinho. Basta pisar no cocôzinho canino abandonado na calçada e pronto: o sensível transeunte fica todo incomodado, procurando livrar-se de seu pegajoso amigo esfregando a sola do calçado em algum gramado. O punk sujo e malvado faz uma cara de asco, e tampa o nariz.
A situação piora quando o assunto é comer bosta. Não estou falando de margarina ou pizza com ketchup (coisa que nem em São Paulo comem). Mas da merda literal, marrom, quente e cheirando vigorosamente no prato de porcelana sobre a mesa. Da porcelana da privada ao espaço nobre da sala de jantar de seu apartamento idiota no condomínio com piscina. Experimente chamar o vizinho para compartilhar a iguaria. Para obter um troço mais aromático, prefira consumir carne vermelha no dia da ocasião especial.
E aí você vai ver que, em geral, seus vizinhos não são de nada. Os mais grosseiros não vão nem tentar experimentar, os mal educados. Outros vão sucumbir à deselegância e falta de modos vomitando em cima da comida. É bom que sobra mais, e com tempero especial de vômito. Em qualquer caso, não vou ser hipócrita. Adianto que eu me incluo entre seus vizinhos, caro leitor. Deixaria você deglutindo sozinho esse rico manjar.
Eu também tenho nojinho. Isso é um problema político. Dessa forma torno-me suscetível a chantagens e pressões. Mesmo que não me sobre nenhum parente, mesmo que eu aprenda a enfrentar a dor, restará a força persuasiva da merda. Será a repulsa à merda um desvio pequeno-burguês? Seja como for, quem puder me ameaçar usando a merda como instrumento de pressão estará em uma situação favorável. A merda é poder. O que é bastante oportuno constatar, já que o poder é uma merda. Sempre algum filho da puta tentando te convencer a fazer o que ele quer. Estamos cercados de gente assim, todos uns bostas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário