segunda-feira, 20 de agosto de 2018

bucetas descalças

Entre o suicídio e a loteria, tantas armadilhas para nos encurralar em vidas medíocres, gordurosas e distraídas. Como, por exemplo, a promessa inscrita sobre o portal de Auschwitz: “o trabalho liberta”. Todos sabem que essa tarefa de Sísifo não levará jamais a lugar nenhum. No final do mês o saldo é zero ou mais dívidas. Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate.
Por isso vendem tanta auto-ajuda, drogas e antidepressivos: o sujeito precisa se dopar para suportar essa merda enquanto não acerta os seis números da mega sena ou tem a sorte de ser atropelado, atravessando a rua desatento aos carros com os olhos enfiados na bunda de alguma gostosa com roupa apertada.
Eis a primeira armadilha para manter o desgraçado preso à vida. Bundas. Indo ou voltando do trabalho, há esse intervalo no limbo da rotina massacrante que destrói cotidianamente a vontade própria e a alegria de viver. Nesses breves lapsos da punição divina contra os mortais pecadores sem dinheiro que prostituem seus escassos dias em troca de pão e café, o assalariado permite que sua cabeça se guie espontaneamente ao sabor do rabotropismo. Entre as trincheiras das obrigações, o cara chega a esquecer da vida merda que leva durante esses lampejos líricos na terra de ninguém. O coração acelera, a língua corre pelos lábios, os dentes mordem o lábio inferior. Que miragem, a bunda. As bundas salvarão o mundo.
Tem outras ciladas para amarrar alguns desavisados ao barco furado da vida e à força de trabalho. Uma dose de cachaça e um bom banho quente no final do dia. Prazeres tão modestos e traiçoeiros. A vida não deveria jamais ser aproveitada longe do trabalho. Os pequenos prazeres são um descuido dos guardas. Eles deveriam estar atentos e telefonar para o celular dos condenados nesses instantes de vagabunda autoindulgência. Os capatazes modernos também deveriam telefonar para os mourejadores quando eles pensam em suicídio. O pensamento autônomo precisa ser abolido antes que seja tarde demais.
Se te queres matar, por que não te matas? Suicídio e esperança de acertar a sena são irmãos. Você pensa em como se matar, surgem várias dúvidas, problemas e devaneios. De que forma fazer? O que fazer antes? Que contas acertar? Qual será a forma mais indolor? Nunca mais pagar a luz, nunca mais acordar cedo, nunca mais discutir com ninguém sobre nada. Nunca estar certo ou errado, nem se incomodar com isso. O amplo e infinito nada, mais duradouro que o próprio Universo em sua lenta morte de frio. Pular de um prédio, de uma ponte, abrir o gás, cortar os pulsos, tomar uma overdose de qualquer coisa. As soluções são tão variadas. Enquanto você pensa em tudo isso, deixa de pensar em coisas que te aborrecem.
Com o onírico bilhete premiado é a mesma coisa. Como gastar? O que comprar? Que viagens fazer? Aproveitar para ler tudo o que a rotina besta não permite? Ou morrer de overdose do mesmo jeito que no plano suicida anterior, no meio de alguma balada idiota? Parece que essas duas possibilidades não são excludentes, afinal. É possível ganhar na loteria e ainda assim se matar. Pensando bem é até bastante provável. Em qualquer caso, sonhando com uma coisa ou outra, o assalariado se liberta da realidade imediata, o que é sempre um alívio. A morte é o ópio do filho da puta com boletos pra pagar.


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